A anarquitetura do Gordon Matta-Clark

A anarquitetura do Gordon Matta-Clark

4 de março de 2010 Arte 0

A obra do norte-americano e filho de chileno Gordon Matta-Clarck, em cartaz no MAM, em São Paulo, é uma pancada. A visceralidade é dele, assim como foi do Oiticica no Brasil, mas é também de uma época. Enquanto pintamos os anos 70 de psicodelia e flores, ele invadia prédios, cortava e extraia pedaços inteiros deles.

Estes ocos metafóricos, radicais a ponto de jogar o artista no limbo dos anos 80 e 90, hoje lhe concedem um lugar especial na história da arte contemporânea.  Certa vez, com um rifle, Matta-Clarck atirou em todas as janelas de um edifício em Nova York. Em outra usou o dinheiro de uma bolsa para financiar um projeto de invasão de uma construção. Fez nela cortes em grande escala e passou a organizar visitações noturnas dentro da mais absoluta ilegalidade. A ousadia rendeu-lhe processos e uma temporada de molho na Europa. 

Ele também já dividiu casas inteiras ao meio e liderou um boicote à Bienal de São Paulo em plena ditadura brasileira. Esta arte de guerrilha, que literalmente atravessava o grid urbano, sem dar a mínima para as convenções dos espaços delimitados pela arquitetura (e para tantas outras) fala de um tempo em que se batia de frente, recusava-se a inclusão nos sistemas, fossem eles quais fossem, e particularmente o da arte. Também é um testemunho de um tempo em que se registrava com precariedade.

A obra dele sobrevive dispersa, em fotos e registros audiovisuais fragmentados. Mas, ainda que o olhar formado nestas últimas décadas reclame de tanta poverice, se toda a economia de recursos migrou para a potência das idéias e da realização, como valeu a pena! Matta-Clark é destes artistas seminais, pôs em cheque a vida nas grandes cidades, enveredou pela gastronomia, e já se orientava por uma visão globalizada e avessa a fronteiras, que o levou a realizar intervenções em várias partes do mundo. Esta logo acima ele realizou em Paris, em um prédio em ruínas que ladeava o Georges Pompidou, na época ainda em construção.

Sobre o autor

eduardo:

0 Comments

  1. Blissett

    4 de janeiro de 2018
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    Bacana. Matta-Clark era mesmo fodaço, grande e precoce perda. Mas uma dica: na próxima capricha mais no "xeque" (evite o CH) pra ficar mais bonito.

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