Diálogo entre tempo e gênero na moda do Inverno 2020

Diálogo entre tempo e gênero na moda do Inverno 2020

29 de janeiro de 2020 Moda 0

Palomo Spain, inverno 2020.

Em 1928, a escritora inglesa Virginia Woolf presenteou o mundo, este ainda mais incongruente do que é hoje, com uma obra de tintas atemporais — e assim, curiosamente, a história veio a ser lembrada. Imperecível, o romance Orlando conta a aventura de um nobre, um jovem de beleza sem igual, da corte da rainha Elisabeth I, que é condenado a vida eterna e atravessa os séculos mudando de gênero, metendo-se em amizades intelectuais e paixões desoladoras.

O romance é entendido por muitos como uma autobiografia da autora, um gênio em desacordo com a vida, que poria fim à sua própria com dezenas de pedras nos bolsos, lançando-se rio abaixo. Dos intensos e fulminantes encontros com a escritora Vita Sackville-West, Woolf teceu uma história tórrida e solitária, ao mesmo tempo que desferia uma discussão pungente sobre a sexualidade humana.

Recentemente, Orlando voltou à arena em variadas situações envolvendo a moda. Em dezembro do ano passado, o Museu Metropolitano de Arte de Nova York, o MET, anunciou que a exposição anual e o famoso baile de gala que promove a abertura do evento teria como tema em 2020 o About time: fashion and duration, inspirado pelo romance de Virgínia Woolf e as teorias do filósofo francês Henri Bergson. Na exposição que marca o aniversário de 150 anos do museu, a escolha das peças do vestuário evidencia a relação com o imutável, assim como os trajes que desafiam os sexos.

Tilda Swinton como Orlando, no filme de 1992.

Segundo Andrew Bolton, curador do Instituto de Figurino do MET, a inspiração para o tema deve também à versão cinematográfica do romance, dirigida por Sally Potter, em 1992. No filme, Orlando é interpretado pela camaleônica Tilda Swinton, a quem a androginia e a dança entre os gêneros foram sempre familiares. Em 2005, a atriz interpretou o Anjo Gabriel no filme Constatine; depois, em 2019, encarnou na pele de um psicanalista alemão no remake de Suspiria e atualmente, é cogitada para dar vida a David Bowie na tão aguardada cinebiografia do black star.

Tilda Swinton como Orlando, no filme de 1992.

Ainda no mesmo mês, a tradicional Opera de Viena estreou uma nova montagem do romance, congregando para tanto, a visão de duas mulheres importantes, a austríaca Olga Neuwirth — autora experimental e primeira compositora mulher a comandar um espetáculo na Ópera de Viena em seus 150 anos de existência —, e Rei Kawakubo, da Comme des Garçons, que a convite de Olga, criou os figurinos dessa nova adaptação. Quem interpreta Orlando dessa vez é o cantor transgênero de cabaré, James Vivian Bond.

Nova montagem de Orlando na Opera de Viena, com figurino assinado por Rei Kawakubo.

Tempo e gênero são assuntos íntimos do repertório de Kawakubo, que aportou na moda no final dos anos 1980 com um discurso insurgente sobre códigos de gênero e suas transições.

Tempo e gênero na moda hoje

Os recentes desfiles das semanas de moda masculina do inverno 2020 catapultaram questões que as temporadas anteriores já tomavam por suposição: a ideia de tempo e gênero não mais como referência estética, mas como elemento sintomático.

As relações entre tempo e gênero na moda são hoje discussões sobre traços comportamentais introjetados pelo Zeitgeist. São elementos determinadores de uma época. O que as recentes temporadas de moda notabilizam é um embaralhamento e, por vezes, um apagamento total das fronteiras entre os gêneros e as idades. Nos desfiles, o casting de modelos expõe uma variedade de corpos, em grande parte, sexualmente ambíguos ou inexistentes, imberbes, pré-adolescentes ou mais velhos, onde não se percebe uma noção etária convencional. É roupa e o corpo, apenas.

Flávio de Carvalho, importante artista modernista brasileiro, classificava essa zona de indistinção como “idades púberes”, fases da história humana em que não há diferença nas vestes de homens e mulheres (caso da Mesopotâmia e do Egito antigo, por exemplo). Essa zona de indistinção ganha no contemporâneo noções que atuam por fora dos contornos de uma ideia binária, isto é, há uma hibridização entre o que é feminino e masculino — e o que pertence a nenhum —, cujos desdobramentos ainda estão em fase de observação.

No desfile de Inverno 2020 da Gucci apresentado neste mês durante a Semana de Moda Masculina de Milão, Alessandro Michele resolveu comemorar os cinco anos a frente da direção criativa da casa italiana com uma coleção poderosa sobre a influência do patriarcado na infância. O constante cancelamento da sensibilidade masculina e a construção de esteriótipos violentos é tomado como pauta e ponto de partida, propondo, de certo modo, uma versão inversa à jornada de Orlando. Para Michele, a masculinidade precisa voltar no tempo, mas não um tempo histórico, e sim um tempo fisiológico. Voltar a uma época de descobertas em que não há distinção entre os gêneros: aprender a desaprender.

As coleções de Palomo Spain são sempre propostas adequadas para o guarda-roupa de um Orlando contemporâneo. Mas o que há de curioso na abordagem historicista do designer espanhol é o retrato da sexualidade masculina. Entre os babados e as mangas barrocas revisitadas temporada pós temporada, existe um diálogo afinado pelos pormenores das peças intimas de época — sobretudo aquelas que são permeáveis aos gêneros —, e a promoção de uma estética que é, em simultâneo, sensual e sensível, próprias desse período de ebulição atual.

As representações masculinas da Prada nessa temporada investigaram a ideia de um heroísmo contemporâneo. No centro da passarela, a estátua de um cavalheiro era feita de papelão, como um brinquedo infantil. De acordo com Miuccia Prada, “uma estátua equestre totalmente não-heroica”.  A natureza do heroísmo hoje permite essa fragilidade de estrutura, sem a camada triunfante e ameaçadora que valida o cavalheiro. Heróis sangram, e homens choram.

É possível lembrar do dia em que Marc Jacobs propôs saias para homens desencadeando inúmeras polêmicas — apesar de continuar vestindo-as sem maiores problemas —, esses dias de cão, custosamente, se foram. E a coleção da Loewe ilustra o cenário: saias e vestidos sobre peças de alfaitaria sugerem mais do que uma fusão, mas uma libertação descomplicada e alegre. Idealizando a coleção, Jonathan Anderson, diretor criativo da Loewe, pensou em meninos pequenos experimentando vestidos de alta-costura em frente ao espelho — antes que a imposição social dos gêneros os atingisse. O resultado é sem dúvida um espetáculo lúdico para amantes de roupas.

Paralelo a semana milanesa, Stefano Pillati retornou aos holofotes como uma coleção super elogiada, sob nova etiqueta, a Random Identities — marca que fundou há poucas temporadas e que celebra uma moda limpa, sem vestígios, uma espécie de rasgo no tecido do patriarcado. As peças desfiladas nesta estação apresentam um exercício de fusão, para indivíduos pós-gênero — e também destituídas de concepções etárias. Representações de sutiã e de sapatos de salto alto aparecem como elementos secundários dentro da composição geral proposta por Pillati. É uma visão estética pós-gênero, assim como é uma fabricação pós-humana.

Quase no fim das apresentações do masculino Inverno 2020, a semana de Alta-costura já se insinuava. Entre as primeiras coleções, a Givenchy de Clare Waight Keller levou a moda para dentro das cartas apaixonadas de Vita Sackville-West e Virginia Woolf, com vestidos que pareciam enormes folhas de pergaminhos. Foram destes escritos esfuziantes que Orlando nasceu e ficou conhecido como “a mais longa e mais encantadora carta de amor de toda a literatura”.

Quase cem anos depois, a história de Orlando, um romance imortal, é o que parece calibrar o tom do diálogo sobre gênero — e a possibilidade de existência de seres e amores além do tempo.

 

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